
Em meio às grandes catástrofes, quando nos sentimos vulneráveis, costumamos reagir com nossos recursos mais primitivos. Negamos as ameaças e não queremos deixar nossa vida regular – o que explica, por exemplo, a resistência em abandonar nossos espaços.
Outro comportamento coletivo recorrente é o de procurar e identificar os culpados pelas nossas dores. Encontrar responsáveis e nomeá-los com raiva parece ajudar a aplacar o desespero. É uma forma de enfrentar o medo e a impotência que nos invade quando sofremos ou vemos a dor de amigos e familiares que tudo perdem em grandes desastres como o que estamos vivemos no Rio Grande do Sul neste maio de 2024.
Esse comportamento circunstancial pode ser compreendido e acolhido. O problema é que ele costuma perdurar e é sucedido por uma espécie de amnésia trazida pelo alívio de termos sobrevivido. Ou seja, passam-se alguns dias, esquecemos tudo e seguimos vulneráveis até o próximo acontecimento.
O aprendizado que se impõe depois de contar corpos, curar feridos, devolver pessoas para suas casas e consertar a infraestrutura é desenvolver estratégias de cuidado para todos. Vivemos em um país que, por muitos anos não precisou se preocupar com prevenção aos desastres. Também porque os atingidos sempre foram os pobres e nosso péssimo senso de justiça entendia como aceitável que eles sofressem. A lógica da desigualdade falava mais alto.
O que mudou com os novos cenários de riscos é que hoje todos somos vulneráveis. Democraticamente vulneráveis. Talvez agora que os donos dos negócios, dos altos salários, os intelectuais e os governantes estão igualmente afetados pelas consequências dos desastres – mesmo que em proporções distintas dos que sempre foram penalizados – os apelos para uma cultura de cuidado e prevenção comecem a ser ouvidos.
Mais uma vez, não esperemos por “responsáveis”. Comecemos cada um de nós em nossas casas, em nosso modo de consumo, em nossas escolhas políticas e em nossas prioridades públicas a agir.
Artigo orgiginalmente publicado em GZH de 14/05/2024