O mundo corporativo entra em 2026 em um estado de transição permanente. O novo Global Risks Report, produzido pelo World Economic Forum (WEF) em sua 21ª edição, é uma leitura indispensável para líderes empresariais que precisam equilibrar o curto prazo turbulento com uma visão de longo prazo cada vez mais incerta. Mais do que um diagnóstico dos perigos à frente, o relatório oferece um mapa das interdependências que moldarão a próxima década. Um convite à ação para executivos que desejam transformar risco em resiliência.
Com uma base robusta de mais de 1.300 especialistas e líderes de 116 economias, além das percepções de 11 mil executivos globais reunidas no Executive Opinion Survey, o relatório consolida duas décadas de metodologia consistente e credibilidade reconhecida. Ele não pretende prever o futuro, mas apresentar cenários possíveis, permitindo que tomadores de decisão planejem com realismo e imaginação ao mesmo tempo. Essa é a essência de uma boa gestão de riscos: reconhecer que o futuro não é linear, mas um mosaico de trajetórias possíveis, todas dependentes das escolhas que fazemos hoje.
O Global Risks Report 2026 define o momento atual como a Era da Competição – um tempo em que as engrenagens da cooperação internacional se enfraquecem, enquanto se intensificam as rivalidades econômicas, tecnológicas e geopolíticas. A confiança, tradicional moeda das relações entre países e empresas, perde valor rapidamente. Mais da metade dos especialistas consultados acredita que o mundo enfrentará uma década “turbulenta ou tempestuosa”, em que o risco de choques sistêmicos será uma constante. Essa percepção não é abstrata: ela se traduz em desafios concretos para as corporações, que precisarão repensar sua governança, suas cadeias de suprimentos e até mesmo sua identidade institucional.

No curto prazo, o relatório aponta dois riscos que merecem atenção imediata: desinformação e confronto geoeconômico. A combinação entre tecnologia avançada, populismo e competição entre grandes potências cria um terreno fértil para crises reputacionais e para distorções no ambiente regulatório. No longo prazo, os riscos se deslocam para o campo ambiental: eventos climáticos extremos, colapso de ecossistemas e mudanças profundas nos sistemas da Terra aparecem entre as principais ameaças à estabilidade global até 2036.
E o que tem a ver com as empresas brasileiras?
Esses movimentos globais têm reflexos diretos sobre o Brasil. O país se encontra em um ponto de intersecção entre vulnerabilidades estruturais e oportunidades emergentes. De um lado, convivemos com desigualdade persistente, infraestrutura deficiente e exposição a desastres climáticos cada vez mais severos. De outro, somos um dos principais polos de biodiversidade do planeta e uma potência energética em transição, com enorme potencial para liderar a agenda verde e a inovação tecnológica na América Latina. Essa dualidade torna o conteúdo do relatório particularmente relevante para os executivos brasileiros: compreender o risco global é o primeiro passo para encontrar as vantagens competitivas locais.
Para que esse entendimento se traduza em ação, as empresas podem usar o relatório como ferramenta metodológica para revisar suas matrizes de risco. Uma boa prática começa pelo mapeamento cruzado dos 33 riscos identificados pelo WEF com aqueles já presentes na governança corporativa de cada organização. Essa leitura comparativa permite detectar pontos cegos – riscos que ainda não foram formalmente reconhecidos, mas que já estão no horizonte. Em seguida, é essencial classificar os riscos segundo o horizonte temporal adotado pelo relatório: curto (até 2 anos), médio (até 5 anos) e longo prazo (até 10 anos). Essa organização ajuda as companhias a balancear a gestão entre crises imediatas e transformações estruturais.
Outro passo fundamental é analisar a interdependência entre riscos, um dos conceitos centrais do relatório. No mapa de interconexões apresentado pelo WEF, a desigualdade aparece como o nó mais influente da rede, conectando fenômenos tão diversos quanto polarização social, desinformação, colapso ambiental e instabilidade econômica. Essa abordagem sistêmica é especialmente útil para líderes brasileiros, que operam em um ambiente onde crises políticas, econômicas e climáticas frequentemente se reforçam mutuamente. Ignorar essas conexões é correr o risco de atacar sintomas e não causas.
Entre os riscos destacados no curto prazo, o da desinformação se mostra particularmente sensível ao contexto nacional. Com o avanço da inteligência artificial generativa e a crescente polarização do debate público, empresas brasileiras estão expostas a ataques de imagem, manipulação de narrativas e distorções informacionais que podem afetar desde campanhas de consumo até decisões de investimento. O relatório classifica esse fenômeno como o segundo maior risco global até 2028. No Brasil, a gestão desse risco deve ir além da comunicação, envolve criar protocolos de resposta rápida, investir em auditoria de dados e promover educação midiática entre colaboradores e lideranças. Em última instância, a reputação corporativa tornou-se um ativo de risco.
Já no horizonte de longo prazo, os eventos climáticos extremos ganham destaque. O WEF aponta que metade dos dez maiores riscos previstos para 2036 são ambientais, com destaque para tempestades, secas, inundações e o colapso de ecossistemas. O Brasil, com sua dependência de recursos naturais e infraestrutura ainda vulnerável, precisa incorporar cenários climáticos aos seus planos de continuidade de negócios. Isso inclui avaliar a localização de ativos críticos, revisar políticas de seguros e resiliência, e integrar métricas de clima e biodiversidade às decisões financeiras e estratégicas. O risco climático não é mais um tema ambiental – é um tema econômico e operacional.
Em termos metodológicos, o relatório também oferece uma lição de governança: a importância da atualização constante. O ambiente de risco global muda rapidamente, e revisões anuais de matriz, alinhadas às novas edições do Global Risks Report, ajudam a manter as empresas conectadas às tendências emergentes. Mais do que um exercício de compliance, trata-se de um processo de aprendizado institucional, em que cada ciclo de revisão aprimora a capacidade de antecipação e resposta.
Como transformar o Global Risks Report em uma metodologia preditiva corporativa

Executivos brasileiros que souberem usar o relatório como um instrumento de reflexão estratégica podem transformar vulnerabilidade em vantagem competitiva. A combinação de leitura técnica e contextualização local é o que permitirá que empresas de qualquer setor – da indústria à tecnologia, do agronegócio aos serviços financeiros ou educacionais – fortaleçam sua cultura de resiliência. Ao fazê-lo, também contribuem para um ambiente empresarial mais maduro, capaz de influenciar positivamente políticas públicas e fortalecer a governança nacional.
O Global Risks Report 2026 é, portanto, mais do que um levantamento sobre ameaças globais: é um convite à liderança responsável. Em um mundo onde cooperação e competição coexistem em tensão permanente, a capacidade de antecipar e se adaptar tornou-se a nova forma de poder corporativo. O relatório nos lembra que o futuro não está escrito, mas desenhado nas decisões que tomamos hoje, e que preparar-se para o imprevisível é, paradoxalmente, a forma mais segura de existir e prosperar em cenários marcados pela incerteza e complexidade.
Consulte o relatório completo: https://reports.weforum.org/docs/WEF_Global_Risks_Report_2026.pdf: Riscos Globais 2026: o guia para Executivos Brasileiros