Neste artigo, a pesquisadora escreve sobre como o impulso de se posicionar em linchamentos virtuais pode destruir reputações institucionais
Publicado em 05/02/26 às 07:05 no Portal Educação em Pauta (https://sinepe-rs.org.br/educacaoempauta/gestao/sem-gestao-de-crise-escolas-caem-na-armadilha-do-odio-digital/-)
Rosângela Florczak, professora, pesquisadora e consultora em gestão de crise e cultura do cuidado
Em momentos de linchamento virtual, muitas instituições educacionais acreditam estar diante de uma exigência moral: é preciso falar, explicar, posicionar-se. O silêncio, nesse imaginário, é confundido com omissão, culpa ou indiferença. O resultado dessa leitura apressada, fruto do senso comum, é previsível e recorrente: ao tentar se defender, a escola amplia o conflito, legitima narrativas hostis e passa a colaborar, ainda que involuntariamente, com a engrenagem do ódio digital.
Esse padrão revela um problema mais profundo do que decisões pontuais equivocadas. Ele expõe a falta de letramento em gestão de crises digitais, especialmente em ambientes educacionais que seguem operando com categorias ultrapassadas e analógicas para enfrentar conflitos moldados por algoritmos, plataformas e dinâmicas de engajamento tóxico.
Quando falar não esclarece e amplifica o ataque
O linchamento virtual não é um debate público. Ele não se organiza em torno da busca por fatos, responsabilidades ou justiça. Trata-se de um fenômeno algorítmico, emocional e performativo, sustentado por indignação contínua, simplificação extrema e produção incessante de inimigos simbólicos. Seu combustível não é a verdade, mas o atrito, o conflito.
Nesse tipo de cenário, qualquer pronunciamento institucional funciona como matéria-prima. A nota “esclarecedora” vira prova de culpa. O pedido de empatia é lido como estratégia defensiva. A tentativa de contextualização é interpretada como relativização moral. A lógica é binária: quem fala, entra no jogo; quem entra no jogo, alimenta o conflito.
Ainda assim, gestores insistem em responder a um público “em geral”, que nem mesmo eles sabem quem é. Não porque isso seja eficaz, mas porque o silêncio provoca desconforto interno. Há medo de parecer frágil, insensível ou ausente. Há pressão de conselheiros, equipes de comunicação, grupos externos bem-intencionados, e, também, de atores que lucram politicamente com a manutenção da controvérsia. Ainda, muitas vezes essa prática é fomentada por orientações jurídicas que não consideram a lógica específica das crises digitais.
O erro educacional aplicado à crise
Escolas e universidades erram mais em crises digitais justamente por causa de sua identidade institucional. Acostumadas a educar pelo diálogo, pela fala e pela explicação, transferem essa lógica para um ambiente que não opera pedagogicamente. O que educa em sala de aula pode destruir reputações em contextos algorítmicos.
O impulso de “ensinar” o público, de esclarecer valores ou de demonstrar virtude moral transforma a instituição em personagem do conflito. A partir daí, ela deixa de ser observadora para se tornar alvo. E, uma vez inserida na narrativa do linchamento, não controla mais seus enquadramentos.
Esse é o ponto mais difícil de aceitar para muitos gestores: boas intenções não produzem bons resultados em crises digitais. Produzem apenas engajamento, o que, nesse contexto, significa permanência do ataque.
Silêncio não é omissão. É técnica
Existe uma diferença crucial entre silêncio estratégico e ausência de ação. O primeiro exige método, disciplina e coordenação. Implica monitoramento contínuo, alinhamento interno rigoroso, definição clara de porta-vozes (inclusive para não falar) e pactos institucionais de contenção.
Quando bem executado, o silêncio retira oxigênio do linchamento. O algoritmo perde estímulo, os ataques perdem novidade, a narrativa deixa de se renovar. A crise, que parecia gigantesca nas redes, não se converte em fato institucional, jurídico ou comunitário.
Não por acaso, as crises algorítmicas mais bem geridas são aquelas que não deixam rastros públicos: não geram reportagens consistentes, não produzem desdobramentos legais, não desorganizam a vida interna da instituição. Elas simplesmente se esgotam.
A colaboração involuntária com o ódio
Quando escolas falam sem letramento em crise, elas não apenas erram, mas ainda colaboram. Cada nota pública, cada postagem defensiva, cada tentativa de “controle de narrativa” oferece novos elementos para a retórica da indignação, reforça enquadramentos simplificadores e prolonga a hostilidade.
Nesse sentido, o discurso de ódio digital não é produzido apenas por haters ou extremistas. Ele também é coproduzido por instituições despreparadas, que acreditam estar se protegendo quando, na prática, estão abastecendo a máquina que as ataca.
A pergunta que gestores educacionais precisam enfrentar não é “o que dizer?”, mas “quando não dizer nada é a decisão mais responsável?”. Isso exige abandonar o senso comum, investir em formação específica, reconhecer limites institucionais e aceitar que, em certos conflitos, falar é perder. Letramento em crise não é intuição, nem coragem retórica. É competência técnica. E, no ambiente digital contemporâneo, ele separa instituições que atravessam tempestades daquelas que se afundam tentando explicar o vento.
Mas então, o que fazer em termos práticos?
Silêncio estratégico não é passividade. Ele só funciona quando é sustentado por ação organizada, vigilância permanente e proteção ativa da comunidade educativa. Em crises algorítmicas, a diferença entre atravessar o episódio ou amplificá-lo está na execução. Na prática, algumas medidas são decisivas:
1. Monitoramento contínuo e qualificado
Acompanhar o caso hora a hora, identificando picos de engajamento, mudança de narrativas, surgimento de novos atores e possíveis riscos de transbordamento do ambiente digital para o físico. Monitorar não é reagir, é antecipar.
2. Contenção dos canais próprios
Fechar comentários em redes sociais institucionais e ocultar imediatamente conteúdos agressivos, difamatórios ou desrespeitosos. Espaços institucionais não são arenas de linchamento. Moderação rigorosa não é censura, é dever de cuidado.
3. Proteção da comunidade educativa como prioridade absoluta
Conversar intensivamente com quem realmente importa: professores e equipes pedagógicas; profissionais da escola; famílias com estudantes vinculados à instituição; estudantes que procurarem a escola, com escuta honesta, acolhimento e limites claros. A crise se resolve de dentro para fora, não o contrário.
4. Fechamento de portas de ataque indireto
Antecipar vetores de amplificação: monitorar e, quando possível, bloquear ou responder tecnicamente a ataques em mecanismos de avaliação e busca; alertar serviços de avaliação de consumidores e plataformas sobre uso abusivo ou coordenado; impedir que a instituição vire alvo secundário em ambientes não controlados.
5. Redução de rastros e blindagem de dados sensíveis
Retirar de sites e redes institucionais informações que exponham pessoas envolvidas no ataque, direta ou indiretamente. Em linchamentos virtuais, dados viram munição. Não amplificar é contribuir para uma garantia fundamental das sociedades civilizadas: o pleno direito à defesa.
6. Observância rigorosa da legislação vigente
Lembrar que, à luz do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), instituições educacionais não podem se manifestar publicamente de forma que confirme, negue ou sugira vínculo de menores de idade a fatos sob investigação. Falar, nesses casos, não é apenas imprudente, pode ser ilegal.
7. Comitê de crise ativo e análise permanente
Reunir o comitê de crise desde o início e mantê-lo em funcionamento contínuo, com: análise de cenários; atualização de riscos; revisão diária das decisões; registro técnico das ações. Crises algorítmicas não se resolvem em reuniões únicas, mas em processos de leitura constante.
8. Período de resguardo e postura low profile
Adotar conscientemente uma postura de baixo perfil, com período de resguardo definido, para proteger a comunidade educativa de agressões virtuais, e também, de riscos presenciais. O silêncio, aqui, é um mecanismo de cuidado coletivo.
No ambiente digital contemporâneo, o maior risco institucional não é o ataque externo, mas a resposta mal planejada. Escolas que falam sem letramento em crise não apenas se expõem, mas ensinam, pelo erro, que o barulho deve ser enfrentado com mais barulho. O silêncio estratégico, ao contrário, exige maturidade institucional, domínio técnico e compromisso real com o cuidado da comunidade educativa. Em tempos de linchamento virtual, proteger não é explicar. É conter, resguardar e atravessar. O resto é ruído e o algoritmo agradece.